Origem e travessia
A história de quem carrega a bandeira
Da Grécia Antiga aos dias de hoje: 39 marcos que ligam as festas dionisíacas, as saturnais romanas, o entrudo português, as congadas e embaixadas negras, os ranchos carnavalescos e as escolas de samba. O que atravessou todos esses séculos foi o essencial — um par que dança em torno de um símbolo coletivo e o protege.
ANTIGUIDADE
Séc. VII–VI a.C.
Festas dionisíacas na Grécia Antiga
Na Grécia Antiga, os cultos a Dioniso, deus do vinho e da fertilidade, davam origem às Dionísias rurais e urbanas: festas de excessos, máscaras e procissões chamadas comos. Marcados pela inversão temporária da ordem social e por cantos ditirâmbicos, esses rituais são uma das raízes mais antigas do carnaval e também da origem do teatro ocidental.
Séc. III a.C.–IV d.C.
Saturnais, Lupercais e Bacanais romanas
Roma transformou os cultos dionisíacos em festas próprias: as Saturnálias, em dezembro, invertiam os papéis entre senhores e escravizados; as Lupercais, em fevereiro, celebravam a fertilidade com corridas rituais; e as Bacanais, dedicadas a Baco, foram restringidas pelo Senado em 186 a.C. por seus excessos, mas sobreviveram de forma informal.
Séc. IV–VI d.C.
Cristianização e permanência das festas pagãs
Com a cristianização do Império Romano, a Igreja tentou suprimir os cultos pagãos, mas muitas práticas festivas sobreviveram acopladas ao calendário cristão, sobretudo nos dias que antecedem a Quaresma. Dessa fusão entre a inversão social pagã e o calendário litúrgico nasce a matriz do carnaval medieval europeu.
IDADE MÉDIA
Séc. XI–XIII
O carnaval medieval e a palavra carnelevare
Na Europa medieval consolidam-se as festas que antecedem a Quaresma, período de jejum e abstinência imposto pela Igreja. O termo carnaval deriva do latim carnelevare — retirar a carne —, referência à última oportunidade de excessos antes das restrições quaresmais. Firma-se aí o caráter de suspensão temporária das regras sociais.
Séc. XV–XVIII
Veneza e a tradição das máscaras
O Carnaval de Veneza, documentado desde o século XI e no auge entre os séculos XV e XVIII, popularizou máscaras como a bauta e a colombina, que garantiam anonimato e suspendiam hierarquias entre nobres e plebeus. A tradição veneziana se espalhou pelas cortes europeias e moldou a estética dos bailes de máscaras que chegariam ao Brasil.
Séc. XIII–XVIII
O Entrudo português
Em Portugal desenvolveu-se o Entrudo, festa popular pré-quaresmal marcada por brincadeiras rudes: água, farinha, ovos e limões-de-cheiro atirados entre foliões. Praticado por todas as camadas sociais, era a principal manifestação carnavalesca lusitana e seria transplantado para as colônias, moldando o primeiro carnaval brasileiro.
BRASIL COLONIAL
1553
O Entrudo desembarca no Brasil colonial
Com a colonização portuguesa, o Entrudo chega cedo ao Brasil e se enraíza em Salvador, Recife e Rio de Janeiro. A brincadeira dos limões-de-cheiro, bisnagas e baldes d'água era praticada por senhores, forros e escravizados, tornando-se a forma dominante de festejo carnavalesco durante todo o período colonial.
Séc. XVII–XVIII
Congadas e a coroação dos Reis do Congo
Nas Minas Gerais e em outras regiões, africanos escravizados e seus descendentes realizavam congadas: cortejos públicos com coroação simbólica de reis e rainhas do Congo, ligados às irmandades de Nossa Senhora do Rosário. Nesses cortejos existiam as embaixadas, apontadas pela historiografia como origem direta do casal de mestre-sala e porta-bandeira.
Séc. XVII–XVIII
As embaixadas e o par que guarda a bandeira
Nas embaixadas, grupos encenavam o encontro entre cortes, com protocolos, reverências e disputas simbólicas. Nelas já existia o par que conduzia a bandeira do rei e o dançarino que a defendia com gestos cerimoniosos. Esse núcleo — símbolo coletivo protegido por um casal que dança — é o que sobrevive até hoje na avenida.
Séc. XVIII
Danças de corte europeias e o minueto
Ao mesmo tempo, danças de salão europeias como o minueto circulavam nas cortes coloniais, trazendo mesuras, cortesias e coreografias de casal. A etiqueta palaciana, somada ao gingado e à percussão das tradições afro-brasileiras, produziu a gestualidade híbrida — reverente e sincopada — que define a dança do casal.
SÉCULO XIX
1808–1850
A corte no Rio e os bailes de máscaras
Com a chegada da família real portuguesa em 1808 e a consolidação da corte no Rio de Janeiro, difundem-se bailes de máscaras e festas de salão à moda europeia. A cidade passa a conviver com dois carnavais paralelos: o dos salões aristocráticos e o das ruas, com o Entrudo popular e os cortejos negros das irmandades.
1850–1870
Repressão ao Entrudo carioca
No Rio imperial, o Entrudo passa a ser combatido por posturas municipais e pela imprensa, que o classificava como violento e incivilizado. A repressão empurra o festejo popular para formas novas de organização e abre espaço para modelos de carnaval considerados mais refinados, importados dos bailes e cortejos europeus.
1855
As grandes sociedades carnavalescas
Surge o Congresso das Sumidades Carnavalescas, seguido por Fenianos e Tenentes do Diabo. Essas grandes sociedades desfilavam carros alegóricos satíricos e promoviam bailes de máscaras, elitizando temporariamente o carnaval carioca. Delas vem a ideia de desfile temático com alegorias, que as escolas de samba herdariam.
1870–1890
Os cordões carnavalescos
Em contraponto às sociedades da elite, formam-se os cordões: grupos populares, majoritariamente negros, com percussão, fantasias improvisadas e personagens fixos. Eram frequentemente perseguidos pela polícia, mas mantiveram viva a matriz afro-brasileira do cortejo, base direta dos ranchos e das futuras escolas de samba.
1893
Rancho Reis de Ouros e o casal com estandarte
Hilário Jovino Ferreira funda no Rio o rancho Reis de Ouros. Os ranchos trouxeram organização coreográfica, marcha-rancho cadenciada, corte de rei e rainha e, sobretudo, o casal que conduz o estandarte da agremiação — a formatação estética que se converteria, poucas décadas depois, no mestre-sala e na porta-bandeira.
INÍCIO DO SÉC. XX
1900–1920
Blocos, tias baianas e a Praça Onze
Multiplicam-se os blocos de bairro e de morro, enquanto a região da Praça Onze, chamada de Pequena África, reúne migrantes baianos em torno das casas das tias — como Tia Ciata. Nesses quintais convivem candomblé, samba de partido-alto e cortejo, formando o caldo cultural onde o samba urbano se organiza.
1916–1917
Pelo Telefone, o primeiro samba gravado
Registrado por Donga em 1916 e gravado em 1917, Pelo Telefone é a primeira música oficialmente registrada como samba. Nascida das rodas da casa de Tia Ciata, a canção marca a passagem do samba de quintal para a indústria fonográfica e para a cidade — trilha das agremiações que estavam por vir.
NASCIMENTO DAS ESCOLAS
1928
Nasce a Deixa Falar, no Estácio
No bairro do Estácio, Ismael Silva e companheiros fundam a Deixa Falar, considerada a primeira escola de samba. O nome viria da vizinhança com uma escola normal. Ali se consolida o samba de andamento próprio para desfilar — o samba do Estácio — e o formato de agremiação com alas, bateria e cortejo organizado.
1928–1935
As primeiras grandes agremiações
Formam-se Mangueira (1928), Portela (herdeira do bloco Vai Como Pode, de 1923), Império Serrano, Salgueiro e outras. Cada uma incorpora heranças das congadas, ranchos e cordões, fixando componentes que se tornariam obrigatórios: comissão de frente, alas, bateria, e o casal de mestre-sala e porta-bandeira guardando o pavilhão.
1932
O primeiro desfile oficial e competitivo
Promovido pelo jornal Mundo Sportivo, realiza-se o primeiro concurso oficial de escolas de samba do Rio, vencido pela Estação Primeira de Mangueira. O carnaval espontâneo torna-se espetáculo julgado, com regras e notas — o passo que levaria à criação de quesitos específicos, entre eles o do casal.
1935
A Prefeitura oficializa o carnaval carioca
Na gestão de Pedro Ernesto, a Prefeitura do Rio reconhece os desfiles e os inclui no calendário oficial da cidade, com subvenção pública. A oficialização exige regulamento, ordem de desfile e critérios de julgamento, consolidando a estrutura competitiva que organiza o carnaval das escolas até hoje.
1937–1945
Era Vargas: o samba vira símbolo nacional
Sob o Estado Novo, samba e carnaval são apropriados pelo Estado como emblemas de identidade nacional. As escolas recebem incentivo oficial, mas são pressionadas a adotar enredos cívicos e patrióticos. O desfile se firma como vitrine cultural do país — e o casal, com seu traje de corte, como sua imagem mais solene.
CONSOLIDAÇÃO
Década de 1940
O casal vira quesito de julgamento
Ao longo dos regulamentos das décadas de 1930 e 1940, mestre-sala e porta-bandeira passam a ser avaliados como quesito próprio, com nota específica. O reconhecimento formaliza a função: não basta desfilar, é preciso dançar com técnica, sincronia e reverência, mantendo o pavilhão sempre visível e nunca tocado indevidamente.
Década de 1950
Delegado e a escola do mestre-sala clássico
Delegado, mestre-sala da Mangueira, torna-se o grande nome da função e referência de estilo: o galanteio contido, o arreio profundo, o domínio da capa. Sua atuação estabelece um padrão coreográfico que seria ensinado e copiado por gerações, transformando o mestre-sala em personagem central do desfile.
Décadas de 1960–1970
Neide, Vilma Nascimento e a técnica da porta-bandeira
Porta-bandeiras como Neide, da Mangueira, e Vilma Nascimento, do Salgueiro, elevam o nível técnico da função ao incorporar princípios do balé clássico — eixo, postura, ponta, cambré — à tradição popular. A porta-bandeira deixa de ser acompanhante e passa a ser protagonista artística do par.
1972
Criação do Estandarte de Ouro
O jornal O Globo cria o Estandarte de Ouro, prêmio extraoficial que se tornaria o mais prestigiado do carnaval carioca. Com categorias próprias para melhor mestre-sala e melhor porta-bandeira, a premiação dá visibilidade pública e consagração de carreira aos intérpretes da função.
1974–1983
Do asfalto às arquibancadas provisórias
Nos anos 1970, os desfiles ocupam a Avenida Presidente Vargas e depois a Marquês de Sapucaí com arquibancadas desmontáveis montadas e desmontadas todo ano. A transmissão televisiva se amplia, os enredos se tornam mais cenográficos e as escolas profissionalizam ateliês, barracões e carnavalescos.
ERA DO SAMBÓDROMO
1984
O Sambódromo e a fundação da LIESA
É inaugurada a Passarela do Samba Darcy Ribeiro, projetada por Oscar Niemeyer, com arquibancadas permanentes na Marquês de Sapucaí. No mesmo ano nasce a LIESA, que passa a organizar o Grupo Especial. Palco fixo, regulamento próprio e transmissão nacional consolidam o desfile como espetáculo profissional.
Década de 1990
Espetacularização e novas dinastias
Com patrocínios, direitos de transmissão e barracões industriais, o desfile ganha escala. O casal acompanha o movimento: fantasias mais pesadas e cenográficas, coreografias ensaiadas o ano inteiro e casais que se tornam marca de uma escola, disputando prêmios e migrando entre agremiações como atletas de elite.
Anos 1990–2000
Selminha Sorriso, Claudinho e a era das celebridades
Casais como Selminha Sorriso e Claudinho, na Beija-Flor, tornam-se conhecidos do grande público, com dezenas de prêmios e décadas de parceria. A porta-bandeira e o mestre-sala passam a ter fãs, escolas de formação, festivais próprios e presença constante na imprensa fora do período de carnaval.
PANDEMIA E RETOMADA
2020
Último carnaval antes da pandemia
O carnaval de 2020 acontece normalmente em fevereiro, semanas antes da chegada da Covid-19 ao Brasil. Seria o último desfile por dois anos: em março, ensaios, quadras e barracões fecham, e milhares de profissionais do carnaval — costureiras, aderecistas, ritmistas e casais — ficam sem temporada e sem renda.
2021
Carnaval cancelado pela Covid-19
Pela primeira vez em décadas, os desfiles oficiais do Rio e de outras capitais são cancelados por razões sanitárias. A interrupção rompe uma sequência histórica iniciada nos anos 1930 e leva as escolas a projetos de assistência à comunidade, lives e ações de memória para manter viva a atividade.
2022
Desfiles adiados para abril
Com o avanço da variante Ômicron, os desfiles previstos para fevereiro são adiados para abril, já com ampla cobertura vacinal. A retomada acontece em clima de reencontro, com enredos que tematizam luto, resistência e ancestralidade — e com casais retornando à avenida após dois anos sem desfilar.
2023–2024
Retomada plena e enredos de memória negra
O carnaval volta ao calendário de fevereiro com público recorde. Cresce a presença de enredos sobre história afro-brasileira, quilombos, religiões de matriz africana e personagens negros — movimento que devolve ao casal de mestre-sala e porta-bandeira a leitura explícita de sua origem nas embaixadas e congadas.
HOJE
2025–2026
Guardiões contemporâneos
Hoje o casal continua sendo um dos quesitos mais tradicionais dos regulamentos, avaliado por bailado, sincronia, desenvoltura, condução do pavilhão e conjunto com a fantasia. Entre veteranos premiados e uma geração formada em festivais mirins, permanece intacta a função nascida há séculos: dançar em torno de um símbolo coletivo e protegê-lo.