Vozes
Depoimentos da avenida
Quem viu de perto conta o que sentiu. Entre com sua conta para deixar a sua memória.
Deixar meu depoimento“O QUE ESTÁ ESCRITO De um povo a escrivivência Do preto que, às vezes, o próprio nome não escrevia Uma pessoa sambista que a encantar, vivia Com poema a recitar, em corpo ileso, Rabiscadas pelo chão, suas frases coreográficas Defender e proteger, outrora Metamorfoseados em celebrar e cortejar, agora Na Encruza ou no Cruzado Primoroso, audaz, desenhado Movimento bem sustentado No Currupio impecável, À linda dama oferta cumplicidade Segurança em seu Aviãozinho, Logo permitindo a facilidade De realizar o Eixo de Curva, De grande complexidade Um luxo a nos encantar Ela, no Abano, se empenha Nos dois sentidos a girar Requintada e muito hábil A bandeira a desfraldar”
“Portanto ele, demais fascinado, Contempla, sem demora, o pavilhão Realizando, a ele, em exaltação Desenvolto Meio-Sapateado Na Carrapeta se esbanja faceiro Deveras ousado, sem receio Arredando o rival temerário, Ofertando, à rainha, resguardo Tal qual um malandro batuqueiro E para mais se exibir Na escritura de suas letras Num gingado sem rodeio Que revela habilidade, executa piruetas E a falsa queda, deslumbra Quem aprecia seu Voleio”
“Um beijo suave tributa À soberana que encanta E com toque seguro, primoroso Executa nesse instante A Pegada-de-Mão, assaz formoso Ela, faceira e bela, pois então Ciente de seu poder Desliza maravilhosa No Balanço com apoio Tremulando o pavilhão Com Patinete que permite mil nuances Ou no Balanço sem apoio Ela ocupa o cênico espaço, Dessarte permitindo que o moço Realize seus meneios e mesuras Mil fugas e contrafugas Num cortejo deslumbrante”
“Em poema de ternura Escrito no chão do terreiro Com obstinados passos em seu riscado Anunciando os pioneiros Ele, orgulhoso e empoderado Faz a Apresentação da Bandeira E a dama majestosa, O manto sagrado portando Deusa, rainha suntuosa Nunca ! jamais se inclina Reverencia estilosa O coração indicando. Exclusivamente divina. E para preservar a linda escrita Do poema dos sambistas Depois de intensamente estudar Venho aqui reivindicar Não apaguem essas letras Das frases coreográficas bonitas Que um dia foram escritas Pelos pés de gente preta: O Bailado do Mestre-Sala e Porta-Bandeira (Souza, Eliane. “SAMBA FAVELA, palavras cariocas”, pp 33; 2026, Rio de Janeiro/RJ)”
“Ser Porta-Bandeira nunca foi apenas carregar um pavilhão. Sempre foi carregar uma história, uma comunidade, a confiança de uma escola inteira e o amor por uma cultura que atravessa gerações. Cada giro, cada reverência e cada desfile marcaram profundamente a minha vida. Aprendi que o pavilhão não é apenas um símbolo; ele representa a identidade, a memória e a alma de milhares de pessoas. Foi dentro desse universo que cresci, aprendi e compreendi o verdadeiro significado do respeito à tradição. Com o passar dos anos, percebi que preservar essa história era tão importante quanto vivê-la. Foi desse sentimento que nasceu o Guardiões do Pavilhão: um projeto criado com o coração, para resgatar memórias, valorizar aqueles que construíram esse legado e garantir que as futuras gerações conheçam a grandeza do quesito Mestre-Sala e Porta-Bandeira. Cada encontro, cada roda de conversa, cada fotografia, cada livro e cada depoimento representam um pedaço da nossa história . Cintia Ribeiro.”